Ontem...



Ontem, pela primeira vez, conheci uma mulher que precisou retirar a mama devido a um câncer. Moradora de uma comunidade pobre da cidade, estava acompanhada de sua filha, que nos abordou durante a ação que fazíamos no terminal urbano para divulgar os lugares de atendimento de mulheres vítimas de violência. 

Indignada, ela reclamava que estava ali pela terceira vez e o serviço de atendimento do cartão social - que concede gratuidade de passagem - não estava funcionando, e de como o mesmo não servia para elas pois ambas moram em Niterói e o tratamento é feito em Santa Tereza - na capital. Comentou que sua mãe acabara de passar por uma cirurgia para retirada de um dos seios e que naquela tarde iria tirar os drenos. 
Apesar da indignação com o serviço público, na sua fala não se percebia ódio ou rancor, apenas gratidão pela mãe ter conseguido vencer a doença e a certeza de que se o universo ajudou até ali o resto se resolveria também. 
No momento em que ela falou sobre o câncer uma das minhas companheiras de trabalho comentou que uma amiga sua está no estágio inicial de tratamento da doença, e, enquanto as duas falavam, meus olhos foram guiados aos olhos da senhora que não aparentava ter mais de 70 anos. No momento em que sua filha falou sobre a retirada da mama 'e agora está tudo bem, graças a Deus' eu vi o desespero silencioso nos olhos daquela senhora, eles se encheram de águas que não transbordaram. Apenas seus olhos demonstravam seu sofrimento e ao mesmo tempo sua angustia. Fiquei a imaginar quão doloroso deve ser para uma mulher em sua idade ter que retirar um seio,mutilada em sua feminilidade - não sua em si, mas imposta e absorvida por quase um século de vida vivida -, fragilizada pelo olhar do outro mas de alguma forma grata pela vida e pelo resto de vida que lhe foi permitido viver. 
E na minha inanição diante desses olhos minhas palavras sumiram. Não tive pena nem dó dela, apenas um sentimento louco de solidariedade que fez olhar pra ela e repetir "vai ficar tudo bem" enquanto e eu só consegui pensar no "porque não peguei o contato daquela ONG que desenvolve trabalhos com mulheres que tiveram câncer na cidade?". 
A imposição de valores como feminilidade e masculinidade fazem de todos nós (homens e mulheres) reféns de sofrimentos silenciosos, de impactos psicológicos que não precisavam estar ali, e tudo isso começa na maternidade, tudo isso começa com o rosa para meninas e azul para meninos. Menina brinca de casinha e menino de carrinho ou guerra. Menina é frágil e homem não chora. Mulheres tem seios, curvas e vagina e homens barba, músculos e pênis e qualquer coisa que cogite dizer diferente disso é considerado uma transgressão e é punido com mais violência, dor e sofrimento, muitas vezes velado, por um olhar torto ou de repulsa. 
E tudo isso é reafirmado pela mídia e pela industria, metodologicamente definido e cotidianamente repetido para manter cada coisa na sua caixinha, garantindo que o medo do olhar do outro seja o suficiente para que nada nem ninguém infrinja as regras sociais. 

Olhares esses que as mulheres que precisam retirar os seios recebem constantemente. Olhares que compreendi no grito silencioso daquela senhora ontem antes do almoço



Foto: Yung Cheng Lin

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