Da Alfazema à felicidade.
Uma roda de samba, dessas tradicionalissimas, hoje só encontradas nos confins dos interiores da Bahia ou em praças urbanas através da iniciativa de jovens que sentem-se responsáveis pela manutenção das culturas populares - culturas essas que nunca tiveram espaço nas mídias para massas - um rapaz, àquele que puxava as
musicas (não sei qual denominação correta) molhou as mãos dos que compunham a
roda com Alfazema e perguntou
"O que esse cheiro vos lembram?".
Apesar de não compreender a pergunta, no inicio, decidi
fechar os olhos e buscar em mim essa respostas. Em segundos eu estava exatamente na casa antiga onde morava com meus avós, mãe, tios, primos, era como se acabara de acordar com o som do programa matinal da rádio local que minha avó escutava religiosamente toda manhã no seu rádio de pilha, na panela a pressão chiando, o cheiro de feijão sendo cozido que se misturava com o aroma do café preto passado no coador de pano; lembrei-me do quintal de terra, das broncas, dos castigos, da molecagem que somente quem cresce na convivência de outras crianças sabe como é. Até aquele momento eu nunca havia parado para resignificar minhas memórias, foram tantas sensações que meus
olhos encheram d'água... Os meus, e de quase metade da roda, inclusive o
"mestre" quando contou que quando bebê, sua avó sempre o banhava com
esse perfume. As emoções da nostalgia individual trazia para a roda uma sensação unica de coletividade, a sensação de que, mesmo todos tendo vivido momentos distintos, em épocas e locais diversos, todos ali possuíam algo em comum.
Os mais novos na roda não compreenderam, até que alguém
disse "hoje só se usa Boticário". Não que eu seja contra o uso de outros perfumes que não o Alfazema, muito pelo contrário, mas de que forma essa individualidade exclusiva pode nos afetar? Pode nos destruir aos poucos? Como essa globalização tem
afetado nossa cultura? E nossa felicidade? O que há por trás dessa necessidade de exclusividade atrelada ao consumo
desenfreado e enlouquecido que vem sufocando - até a morte - nossas ancestralidades
e nossas mais puras lembranças? Como podemos chegar ao ponto de preferir importar culturas -e produtos- e de nos esquecer quem somos e de onde viemos?
Não que eu tenha me tornado uma tradicionalista, longe de mim, mas essa necessidade de ser exclusivo, único mas "antenado às tendências mundiais, globais", que tem gerado uma obsessão patética pela busca da felicidade extremamente mercadológica, tem desconstruído nossa
capacidade de observar pequenos detalhes do dia-a-dia que constroem nossa felicidade
individual e como o esquecimento ou a não preservação de algumas tradições populares impacta diretamente na felicidade
coletiva.
Ver aquela dezena de pessoas se emocionando - como eu - com
um simples cheiro e a nostalgia de suas lembranças que apesar de esquecidas,
naquele momento, pareciam tão vivas quanto uma brisa de vento, me fez feliz.
Saber que mesmo sem conhece-las, mesmo tendo cada um ali vivido historias e percorrido caminhos em condições distintas, algo individual era compartilhado (sem necessidade de 3G
ou Wifi) enquanto a emoção expelia pelos poros de todos.
Qual a obrigação de ser feliz sem resgatar o passado tem sido imposta aos sonhos dessa nova geração? (apesar de me sentir com 50 anos de idade nese momento, sou dessas que apesar de nova sente-se idosa perante a realidade da minha geração).
Tantos lutaram para que as individualidades pudessem ser respeitadas e hoje nos submetemos à essa imposição para a construção de "famílias de comercial de
margarina", uma vida onde há completo bem estar financeiro ou finais
eternamente felizes como os de novelas e comédias românticas, que fazem cada vez mais as pessoas esquecerem de suas idiossincrasias, de suas lembranças, de suas vontades pelo "parecer bem", onde todos tem se sujeitado viver em caixas rotuladas para sentir-se parte de algo e assim serem seres frustadamente felizes em um cotidiano robótico, regado á anti depressivos, terapias e outros métodos de fuga dessa realidade vazia mas feliz.
Ontem pude viver o que é compartilhar, o que é ser parte de algo maior e quero
eternamente momentos como aquele, de comunhão entre meu passado e com o
passado de tantos outros que eu não conheci mas que o tempo fez com que
chegassem aos meu presente - não que depois de velha eu tenha virado uma
otimista fervorosa - mas talvez alguém mais realista e mais grata, alguém que
decidiu mudar o ponto de observar a vista e encontrou uma felicidade
inexplicável, alguém que como Sophia e como os filósofos decidiu observar o
mundo dependurada nas pontas dos pêlos do coelho, mesmo correndo o risco de
cair, mas que não se sujeitou ao conforto - e a escuridão - do interior dos pêlos.
E foi assim que vivi o ontem, ao som do Maracatu, nos passos do
Coco, na roda da Ciranda, no tambor do Jongo, nas saias das negras do Samba de
Roda e no calor do Frevo, embalados com o cheiro do meu passado, tão vivido e
tão feliz.
Minhas contas continuam atrasadas, minha vida continua um
caos, meus problemas continuam no mesmo lugar, mas ontem, dormi cheirando a Alfazema.
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